A Corte dos Esquecidos · Capítulo 3

Treino

O pátio de treino ficava nos fundos do castelo, cercado por aquelas árvores prateadas que Lara estava começando a achar assustadoramente bonitas.

Kael estava no centro quando ela chegou, sem paletó, com as mangas dobradas até o cotovelo, fazendo aquela coisa que ele claramente fazia em qualquer ambiente: ocupar o espaço como se ele existisse por permissão dele.

— Primeiro — disse ele, sem preâmbulo —, preciso entender o que você tem.

— Eletricidade. Tempestades. Coisas explodem.

— Mais específico.

Lara suspirou. — Quando eu fico com raiva ou assustada ou muito... qualquer coisa, realmente, o poder sai. Sem controle. É como segurar água — fica até não ficar mais.

Ele a olhou. — Mostre.

— Não tenho controle, lembra? Não funciona sob demanda.

— Ainda não. — Ele cruzou os braços. — Mas há alguma coisa que desencadeia. Encontre.

Ela ficou parada no centro do pátio, sentindo-se um tanto ridícula. Fechou os olhos. Procurou o formigamento que conhecia tão bem — aquele zumbido baixo que ficava embaixo da pele quando as coisas estavam prestes a sair do controle. Normalmente ele aparecia sem convite. Agora que ela estava procurando especificamente, o silêncio dentro dela era absoluto.

— Não está acontecendo.

— Porque você está tentando encontrar o controle antes de encontrar a fonte. — A voz dele veio de perto — ele tinha se movido sem barulho, estava a talvez dois metros. — O poder não é elétrico. Eletricidade é o sintoma. Qual é a fonte?

— Não sei.

— Sim, sabe. Só ainda não reconheceu.

Lara abriu os olhos e o encarou. — Você é assim com todo mundo ou é especial só comigo?

— Assim como?

— Desse jeito. Seco. Como se cada palavra fosse cobrada.

Algo que não era bem um sorriso apareceu pelo canto da boca dele. — As palavras são cobradas aqui. Aprenda isso cedo.

— Ótimo conselho de alguém que mal abre a boca.

Ele se aproximou mais um passo. Ainda a distância respeitosa — ainda completamente dentro do território profissional —, mas próximo o suficiente para ela ver os detalhes que a distância apagava: as linhas sutis nos cantos dos olhos, a marca quase invisível na mandíbula que devia ser de alguma batalha muito antiga, os olhos cinza que de perto não eram cinza de forma alguma mas de uma cor que mudava dependendo do ângulo, como pedra iridescente.

— O poder de tempestade vem de emoção — disse ele, com voz mais baixa. — Não de raiva especificamente. De intensidade. — Uma pausa. — O que você sente com mais intensidade?

A pergunta era clínica. Técnica. Absolutamente não era o tipo de pergunta que deveria fazer o coração dela fazer algo imprevisto.

— Frustração — disse ela. — Quando as coisas não fazem sentido e eu não consigo resolver.

— Bem. — Ele recuou. — Então vamos criar frustração.

O que se seguiu foi a hora mais irritante da vida de Lara.

Kael propôs exercícios simples — mover um objeto, fazer uma faísca controlada, qualquer coisa pequena — e toda vez que ela tentava, nada acontecia ou acontecia demais. Uma vez ela fez metade das pedras do pátio vibrarem ao mesmo tempo. Outra vez, absolutamente nada. Num ponto, uma faísca saiu de forma tão abrupta que chamuscou a manga da própria camisa.

Kael observou tudo com aquela expressão de análise que ela estava aprendendo a odiar com carinho.

— Você está pensando sobre o poder em vez de sentir o poder — disse ele, ao final.

— Boa observação. Você vai me dizer como parar de pensar sobre alguma coisa que está explodindo na minha mão?

— Eventualmente.

— Útil — disse ela, pela segunda vez naquele dia.

Mas quando ela foi embora — chamuscada, levemente humilhada, com pedras de pátio ainda vibrando baixinho — ela percebeu que durante aquela hora inteira, o formigamento nas mãos tinha sido controlável. Pequeno. Presente, mas não avassalador.

Ela não disse isso para ele.

Mas parou na entrada do castelo e olhou para as próprias mãos por um momento, sentindo algo que ela precisaria de algum tempo para reconhecer como esperança.