O Vinculo do Alfa · Capítulo 1

Cabana na Floresta

— E-eu fui s-sequestrada. — As palavras tropeçam na minha língua. — Era uma cabana… no meio da floresta. Tinha um homem alto. Moreno.

Minha voz sai rouca, como se eu não a usasse há séculos. O policial à minha frente me observa com atenção exagerada, caneta suspensa sobre o bloco de anotações. A luz fria da delegacia torna tudo ainda mais irreal.

— Calma, senhorita. — Ele fala com um tom treinado, meio automático. — Você se lembra do nome desse homem?

Fecho os olhos por um segundo. O cheiro de madeira úmida, o estalar da lareira, o toque quente em volta dos meus pulsos… Flashes atravessam minha mente como relâmpagos. O rosto dele se forma devagar: maxilar firme, barba por fazer, cabelos negros caindo sobre a testa e… aqueles olhos.

Azuis. De um azul tão intenso que parecia cortar a escuridão.

Abro os olhos de novo, de volta à cadeira dura e ao zumbido do ventilador velho girando no teto. Meus dedos tremem quando tento me agarrar à beirada da mesa.

— Eu… acho que s-sim. — engulo em seco. — Damian.

O policial anota o nome, franzindo o cenho.

— Damian o quê?

— Eu não sei o sobrenome. — minto, e sinto a mentira como uma pedra presa na garganta. Eu sei, sim. Só não quero dizer. Se eu disser, é como admitir que conheço aquele homem mais do que deveria.

Damian Thorne. O nome pulsa na minha mente, acompanhado de um arrepio que desce pela minha coluna.

— Certo. — o policial suspira. — Você disse que acordou numa cabana. Sozinha com ele?

— Só nós dois. — murmuro. — Eu tentei fugir…

Tentei. Mas o som da minha própria respiração nervosa, misturado ao uivo distante de algum animal lá fora, ainda ecoa dentro de mim. Eu correndo pela floresta, descalça, galhos arranhando minhas pernas. A sensação de que ele vinha logo atrás, rápido demais para ser humano.

Não. Eu não posso pensar nisso agora.

— Senhora…

— Alina. — corrijo. — Meu nome é Alina.

— Tudo bem, Alina. — Ele anota meu nome também. — Você lembra como chegou até lá? Se viu algum carro, alguma estrada…?

Balanço a cabeça, frustrada. Minha memória é um quebra-cabeça com peças faltando. Eu lembro de estar em uma festa, música alta, cheiro de álcool e perfume. Depois, um apagão. E então, a cabana. O olhar dele sobre mim, como se me conhecesse há muito tempo.

Meu peito aperta. Uma parte de mim insiste que não era exatamente um sequestro. Que havia algo mais. Mas a outra parte está apavorada demais para acreditar em outra coisa.

O policial troca um olhar rápido com outro agente, que está encostado na porta, braços cruzados. Sinto o peso daquele olhar. Eles não sabem se acreditam em mim. Talvez eu mesma não saiba.

É aí que a porta da delegacia se abre com um estalo seco.

O som faz todos nós virarmos a cabeça ao mesmo tempo. O ar parece ficar mais pesado, mais denso, quando a figura atravessa o batente.

Ele.

Por um segundo, acho que estou alucinando. O homem que entra é exatamente o mesmo da minha memória: alto, ombros largos preenchendo o espaço como se a sala fosse pequena demais para ele, jaqueta escura aberta sobre uma camisa simples, calça jeans, botas sujas de terra. O cabelo negro está um pouco desalinhado, como se tivesse vindo às pressas.

Mas são os olhos que me paralisam. Aquele azul impossível, profundo, que parece me reconhecer antes mesmo que eu consiga desviar o olhar.

Meu coração dispara.

— Quem é o senhor? — o policial ao meu lado se levanta de imediato.

O recém-chegado ignora a pergunta por um instante. Seu olhar continua preso em mim, e a sala desaparece. Tudo o que existe é a forma como ele respira, como a mandíbula dele se contrai.

— Ela está bem? — Sua voz é grave, carregada de algo que não sei definir: preocupação, raiva, posse. Talvez tudo junto.

— Senhor, essa é uma delegacia. — o outro agente se adianta, irritado. — Precisamos que se identifique.

Só então ele se volta para o policial, com um meio sorriso que não chega aos olhos.

— Damian Thorne. — Sua apresentação é simples, mas o nome preenche o ar como se fosse um aviso. — Estou aqui pela minha…

Ele faz uma pausa, me encara outra vez, e eu vejo a luta em seu rosto.

— Pela minha companheira. — termina, por fim.

Sinto o sangue sumir do meu rosto.

— Companheira? — o policial repete, confuso. — A moça acabou de registrar um sequestro.

Damian solta uma risada baixa, sem humor. Dá alguns passos à frente, e eu sinto um arrepio estranho, uma espécie de calor que percorre o ar entre nós.

— Sequestro? — Ele inclina a cabeça, olhando para mim como se estivesse desafiando a minha versão. — Alina, você disse que fui eu quem a raptou?

Minha boca abre e fecha, mas nenhuma resposta sai. Eu não consigo mentir olhando diretamente para aqueles olhos. Ao mesmo tempo, não consigo admitir a verdade que insiste em borbulhar sob a superfície: eu fugi.

— Senhor Thorne, vamos precisar que o senhor se afaste dela. — o policial coloca a mão à frente, criando uma barreira imaginária. — Até terminarmos de ouvir o depoimento.

A mudança em Damian é sutil, mas assustadora. A postura relaxada some, os ombros enrijecem, e o olhar fica afiado, predatório. Por um instante, juro que vejo algo brilhar em seus olhos — um reflexo amarelado, quase animal.

— Não me parece que ela esteja em segurança aqui. — ele murmura. — O cheiro dela está todo errado. Está com medo, dolorida… e longe da matilha.

Matilha.

A palavra corta meu pensamento como uma lâmina. Há algo de errado nisso tudo, algo maior do que um simples “sequestro”.

— Você não pode simplesmente entrar e levar uma vítima, senhor Thorne. — o policial insiste, firme. — Se a senhorita Alina disser que quer ir com você, é outra história. Mas enquanto ela disser que foi mantida em cativeiro, você é suspeito.

Os olhos azuis se viram para mim mais uma vez. O mundo inteiro parece prender a respiração.

— Alina. — Ele diz meu nome com uma intimidade que queima. — Diga a verdade. Você sabe que não estava presa. Você sabe quem eu sou.

Sei?

As imagens voltam: a cabana, ele me segurando quando um ataque de pânico ameaçou me engolir, o jeito como sua pele era quente demais, como se ele tivesse febre constante. A sensação estranha de que, perto dele, meu coração batia no ritmo certo.

Mas também lembro do medo. Da corrida pela floresta. Do uivo rasgando a noite.

— Eu… — Minha voz falha. Todos me observam. — Eu só queria ir embora.

Damian fecha os olhos por um segundo, como se aquelas palavras doessem fisicamente. Quando os abre de novo, porém, não há mais hesitação ali.

— Então vamos fazer direito. — Ele se volta para o policial, voz firme. — Registre o que for preciso. Investigue o quanto quiser. Mas saiba de uma coisa: ela não foi sequestrada. Ela pertence a mim, quer admita isso agora ou não.

Meu corpo inteiro reage àquelas palavras. Metade de mim quer gritar, xingar, negar. A outra metade… reconhece.

Porque, por mais absurdo que pareça, há algo dentro de mim que responde a ele. Algo antigo, profundo, que desperta como se estivesse apenas aguardando a voz de Damian para abrir os olhos.

Eu não entendo.

Só sei que, quando aquele homem atravessou a porta da delegacia, o mundo que eu conhecia deixou de existir.

E lá no fundo, onde a razão não alcança, uma palavra ecoa, rouca, quase um sussurro:

Alfa.