A Surpresa da Madrugada · Capítulo 2
O Barman e o Olhar
A batida pulsava no peito de Luna, um eco da expectativa que a invadia. O vestido vermelho, curto demais para o bom senso, mas perfeito para a noite, mal continha a excitação. Rafael, ao lado dela, ria de alguma piada que ela mal escutava, o braço possessivo em sua cintura. A “surpresa” que carregava sob a seda era um segredo divertido, esperando o momento certo para ser revelada.
Era um jogo. Uma noite para esquecer a rotina, para se sentir desejada. O Club Eclipse era o cenário ideal: neon rosa e azul pintavam sombras dançantes, a fumaça doce de narguilé misturada com o cheiro de suor e perfume caro. Jovens se moviam como um só corpo na pista, perdidos na melodia eletrônica.
— Quer uma bebida, Luna? – Rafael perguntou, a voz um pouco alta para competir com a música. – Vou pegar agora mesmo.
— Cerveja gelada, por favor – ela respondeu, com um sorriso, mordendo o gloss no lábio inferior. Seus olhos vasculhavam o balcão à procura do barman, uma distração trivial para a noite que mal começara. E foi então que seu mundo colidiu.
No centro do balcão principal, sob o brilho ofuscante de um holofote, estava ele. Os braços fortes moviam-se com precisão, as garrafas giravam de forma hipnotizante. A jaqueta de couro preta contrastava com a camisa escura, acentuando os ombros largos. E as tatuagens... novas, vibrantes, estendendo-se pelos antebraços.
Dante.
Um raio rasgou a bolha de diversão que ela construíra. O ar rarefeito do clube pareceu sumir dos pulmões de Luna. Seus olhos castanhos fixaram-se nele, incapazes de desviar. Ele estava mais maduro, a barba por fazer adicionando uma camada de perigo à sua aura. O olhar sério, distante, varria a multidão, até que… parou nela.
Foi um milésimo de segundo, mas pareceu uma eternidade. Os olhos intensos de Dante a perfuraram, atravessando a distância e o tempo. Não havia riso brincalhão, nem a leveza que ela lembrava. Apenas uma intensidade que a fez cambalear, um misto de raiva contida e desejo reprimido que a atingiu como um raio. Ele não precisou dizer uma palavra. Aquele olhar dizia tudo: *“Você. De novo. Aqui.”*
A música, antes vibrante, agora parecia um zumbido distante. O corpo dele, que antes fora dela, agora pertencia àquele balcão, àquele clube. A pista de dança se moveu ao redor de Luna, mas ela estava paralisada. A “surpresa” sob seu vestido pareceu queimar a pele, de repente, completamente irrelevante. Seu plano para a noite desmoronara em um milhão de pedaços de neon.
— Luna? – Rafael voltou, um copo de cerveja gelada na mão, rompendo o feitiço. – Tudo bem? Você está pálida.
— Tudo ótimo – ela forçou um sorriso, pegando a cerveja e tomando um longo gole. O líquido gelado desceu queimando. Tentou desviar o olhar do balcão, mas era impossível. Ele continuava ali, imponente, um fantasma do passado que se recusava a ir embora.
— O que vamos dançar? – Rafael perguntou, puxando-a para a pista de dança. Ela se deixou levar, mas seus olhos continuavam buscando o balcão. Ele ainda a observava. Seu olhar era uma tortura silenciosa, prometendo um reencontro que ela não sabia se queria enfrentar.
Ele tentou manter o profissionalismo, mas Luna viu a pálpebra dele tremer, o maxilar endurecer. Ela o conhecia. Conhecia cada uma dessas tensões, cada uma dessas lutas internas. A raiva, o ciúme que ele tentava sufocar. A dança de Luna se tornou uma provocação. Um jogo perigoso.
Rafael não descolava dela, e isso só intensificava o desafio. Cada risada que ela dava para Rafael, cada toque que ela permitia, era uma flecha direcionada a Dante. Ela flertava com o perigo, e ele estava ali, parado, observando-a. O barman. O ex. Seu vício mais antigo, sua queda, sua maior fraqueza. E ele sabia disso.
Um tempo depois, ela forçou Rafael a ir buscar mais uma bebida, empurrando-o gentilmente em direção ao bar. Precisava de um momento, de um respiro, de uma confirmação. Deu o comando com um sorriso, a maís pura das manipulações.
Enquanto Rafael se afastava, Luna respirou fundo. Seus olhos se cravaram nos dele novamente. O balcão parecia um palco, e eles, os únicos atores. Ela aproveitou a deixa, aproximando-se, o quadril balançando no ritmo da música. Um sorriso mínimo, quase imperceptível, curvou seus lábios. Ele a seguiu com o olhar, intenso, perigoso.
— Cerveja gelada, por favor – ela disse, sua voz rouca, quase um sussurro, quando finalmente chegou à frente dele. Seus dedos roçaram inadvertidamente os dele quando ela estendeu a mão para pegar o copo. Um choque elétrico correu por sua pele. Ele segurou o copo por um segundo a mais do que o necessário, os olhos fixos nos dela, a boca levemente contraída. A eletricidade entre eles era palpável, um convite silencioso para um jogo antigo de gato e rato. Ela sentiu que ele queria puxá-la para o outro lado do balcão, e ela, estupidamente, queria se deixar levar. Aquele toque, aquela briga de olhares... era tudo o que ela precisava para reacender o fogo. A faísca estava ali. A tensão, insuportável, se espalhou pelo ar, um veneno doce e perigoso que só os dois podiam sentir. Ele então soltou o copo, o som do vidro no balcão de metal reverberando em seus ouvidos. Luna sabia, com cada fibra do seu ser, que aquela noite estava apenas começando, e que a “surpresa” que ela trouxera tinha um novo, e perigoso, destinatário em potencial.
Ela levou o copo aos lábios, as unhas vermelhas marcando o vidro. Seus olhos nunca o deixaram. Ele servia outros clientes, mas sua atenção estava nela. A batida no peito de Luna não era mais da música, mas sim da adrenalina, da excitação, do perigo iminente. Rafael voltou, com um sorriso largo, e ela se viu jogada de volta para a farsa. Mas a imagem de Dante, seus olhos, o toque, a promessa silenciosa, estavam gravados em sua mente.
Enquanto dançava com Rafael, um sorriso de satisfação surgiu em seu rosto. A balada era o seu palco. Três pessoas, um triângulo explosivo. Ela não podia ser pega, mas parte dela desejava ardentemente ser. O jogo estava montado. E Luna, com um brilho malicioso nos olhos, estava pronta para jogar com as chamas.
O corpo de Rafael pressionava o dela na pista de dança, mas a mente de Luna estava em outro lugar. Seus olhos buscavam Dante, que agora a observava com uma intensidade que a revirava por dentro. Ele ergueu um copo para ela, um brinde silencioso, e Luna sentiu um arrepio. Não era um brinde de amizade, mas um desafio. Uma promessa subentendida de que ele a faria lembrar o que havia entre eles.
Ela mordeu o lábio inferior, um gesto inconsciente que sempre fazia quando estava nervosa ou excitada. Aquele homem… ele ainda tinha esse poder sobre ela. Era como se, por um instante, o mundo se calasse e só os dois existissem. Todos os seus medos, todas as suas ambições se resumiam a uma única questão: ela seria capaz de resistir a ele? Ou, mais perigosamente, ele a faria desistir do que planejara para aquela noite? O coração de Luna acelerou, a surpresa sob o vestido parecendo mais um fardo do que um trunfo. A noite estava apenas no começo, e o destino daquela “surpresa” estava mais incerto do que nunca.
Ela precisava decidir quem deveria receber, no final das contas. O homem que ela trouxe… ou o homem que, em seu olhar, prometia desvendar cada um de seus segredos e desejos mais profundos.