A Surpresa da Madrugada · Capítulo 1
A Noite Que Virou
A batida eletrônica pulsava nas veias de Luna, transformando-se em adrenalina pura. O Club Eclipse era o seu santuário de sexta-feira, o lugar onde o mundo se dissolvia em luzes neon e o único compromisso era sentir. Ela girou na pista, o vestido preto de paetês cintilando a cada movimento, revelando apenas o suficiente para provocar.
Os dedos de Rafael roçaram sua cintura, e um sorriso preencheu o rosto dele. Ele era bonito, divertido, e naquela noite, o foco da sua “surpresa”. Luna piscou para ele, os olhos castanhos brilhando sob a luz estroboscópica. A intenção era clara: a noite seria deles. Ou assim ela esperava.
— Você está deslumbrante, Luna, – ele sussurrou perto do seu ouvido, a voz competindo com o grave do som. O perfume amadeirado dele se misturava ao cheiro doce que pairava no ar.
Luna apenas riu, a voz rouca pela música. Ela inclinou a cabeça para trás, e o cabelo preto e ondulado caiu sobre os ombros, expondo a pele macia. Era tudo parte do jogo, a dança sensual que precedia a entrega. Ela adorava a sensação de ter os olhos de um homem sobre ela, de saber-se desejada.
Na balada, Luna não era apenas Luna. Era a mulher que transformava olhares em chamas, que traçava seu próprio caminho com confiança e um toque de mistério. Ela tirou o celular da minúscula bolsa e digitou uma mensagem rápida para ele: “A surpresa te espera.” O canto dos lábios se curvou num sorriso malicioso.
Ela sentiu o calor do corpo de Rafael se aproximar ainda mais, as mãos dele descendo lentamente para sua cintura. Por um instante, Luna pensou que ele ousaria beijá-la ali, no meio da pista, mas ela desviou com um movimento rápido. Não agora. A surpresa era para depois.
— Vou pegar uma bebida. Você vem? – ela perguntou, a voz um pouco mais alta para ser ouvida. Precisava de um respiro, de um momento para se reagrupar. A euforia da música estava começando a ser sufocante.
Rafael assentiu, os olhos grudados nela. Era quase possessivo, mas Luna gostava da intensidade. Ela acenou para que ele a seguisse, abrindo caminho pela multidão. O bar era sempre um ponto de escape, um lugar onde a luz era um pouco mais branda e a música, minimamente menos ensurdecedora.
Quando se aproximou do balcão, a fila não estava tão longa quanto de costume. Luna analisou os rostos atrás do bar, procurando por alguém que a percebesse. Seus olhos esquadrinharam os bartenders, todos em suas camisas pretas apertadas, misturando coquetéis com uma agilidade hipnótica. Um deles se virou.
O brilho do neon rosa e azul refletiu nos olhos dele.
Cabelo escuro, barba por fazer que adicionava um ar mais maduro e perigoso, e ombros largos que antes ela conhecia tão bem. Uma tatuagem nova cobria parte do antebraço, um desenho tribal que adicionava mistério. Os olhos… Ah, os olhos. Castanhos como os dela, mas com uma profundidade que ela nunca vira antes.
Foi como se a música parasse. O grave silenciou, as luzes se fixaram. Luna sentiu o ar rarear. Dante. O mesmo homem que ela jurou ter apagado da memória. O mesmo homem que havia sido seu vício, sua queda e sua maior fraqueza. Ele estava ali, do outro lado do balcão, servindo drinks, com uma postura que gritava “perigo” onde antes havia apenas “garoto ideal”.
Por um segundo, seus olhares se prenderam. Uma eletricidade percorreu o corpo de Luna, um arrepio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Aquele olhar sério e profundo, que antes a desnudava, agora a devorava com uma intensidade que a fez tremer. Ele não sorriu. Não piscou. Apenas a observou como quem reencontra um fantasma, com uma mistura de raiva contida e um desejo que não se podia negar. O copo que ele segurava quase caiu de sua mão, mas ele o firmou com um controle férreo, um reflexo do homem que ele havia se tornado. A balada inteira, o ficante ao seu lado, a “surpresa” cuidadosamente planejada… tudo perdeu o significado. Existe uma única batida forte agora: a do seu coração. E ela sabia que não estava batendo por Rafael.
Rafael se aproximou, e Luna sentiu um pânico gelado. — Demora para ser atendido aqui! – ele resmungou, sem perceber o cataclisma que se formava nos olhos de Luna. – Que tal um shot pra começar? Pra aquecer a noite?
Ela balançou a cabeça, um nó na garganta. Não conseguia desviar o olhar de Dante, que agora atendia a outra cliente, mas seus movimentos eram lentos, calculados, como se ele estivesse ciente de cada fibra do corpo de Luna. Ele parecia… diferente. Mais maduro, mais intenso. Mais perigoso.
— Luna? Tudo bem? Você está pálida, – Rafael tocou levemente seu braço. A voz dele era uma interferência no ruído que ecoava na cabeça dela. Não, não estava tudo bem. Nada estava bem.
Ela engoliu em seco, tentando forçar um sorriso. — Estou… só. Só um pouco de calor. Vou pegar um gin com tônica. Você… Você pode pegar pra mim?
Ele franziu a testa, mas assentiu. — Claro. Qual você quer? Rosa, ou o tradicional? – ele se virou para olhar a variedade de garrafas.
Foi a chance dela. O momento perfeito para agir, para testar as águas, para ver se aqueles olhos ainda escondiam o mesmo fogo. Luna deslizou para a direita, parando bem em frente a Dante. Ele ergueu o olhar, os lábios apertados, a tatuagem no antebraço se contraindo com a tensão.
— Um gim tônica, por favor. O mais forte que tiver, – Luna pediu, a voz um sussurro rouco. Seus olhos não se desviaram dos dele, desafiando-o a quebrar a máscara de indiferença. O cheiro de álcool, menta e o perfume masculino dele invadiu suas narinas, um aroma familiar e proibido.
Ele pegou a garrafa de gim, os movimentos precisos, mas os músculos do antebraço estavam tensos. Seus dedos roçaram os dela quando ela estendeu o copo, um toque elétrico que durou apenas um microssegundo, mas foi o suficiente para acender a faísca. O olhar dele desceu, lento e deliberado, varrendo cada centímetro do vestido dela. O decote, a cintura marcada, as pernas longas expostas pelo tecido curto. Era um olhar que dizia: “Eu conheço cada curva do seu corpo, Luna.”
Ele se inclinou ligeiramente, a voz baixa e rouca, um sussurro que apenas ela podia ouvir sobre o burburinho da balada: — Esse vestido não é pra ele, é pra mim. – não era uma pergunta, era uma afirmação, um desafio. E Luna sentiu o sangue ferver nas veias, as maçãs do rosto corarem. O desejo proibido e avassalador que ela tinha sentido por ele anos atrás voltou com uma força arrasadora. Era como se a balança da noite tivesse virado, e a surpresa que ela havia planejado para Rafael agora tinha outra destinatária. Sua própria vontade de reviver o passado – e o fogo – com Dante.
Luna sentiu as bochechas esquentarem. Ela mordeu o lábio inferior, um gesto inconsciente que sabia que o provocava. A tensão entre eles era quase palpável, um fio invisível e perigoso que ligava seus corpos à distância.
— Vai querer algo mais, senhorita? – ele perguntou, o tom profissional, mas aquele olhar… Aquele maldito olhar que ela tanto sentia falta. Era um jogo, ela sabia. E Dante sempre fora o melhor jogador.
Rafael retornou, os olhos curiosos. — Conseguir um com gelo foi um milagre! O que você, uhm… estava conversando com o bartender?
O caos se instalou. Luna pegou o copo de gim preparado por Dante, a mão tremendo levemente. Ela precisava sair dali antes que algo mais fosse dito, antes que o castelo de cartas que ela chamava de “noite perfeita” desabasse. Mas como ignorar a atração magnética, a química familiar e explosiva que ainda pulsava entre ela e Dante?
— Apenas pedi uma bebida mais forte. Parece que vou precisar, – ela respondeu, um sorriso forçado nos lábios. Mas o sorriso não alcançou seus olhos, que ainda estavam presos aos de Dante. Ele virou as costas, começando a preparar outro coquetel.
Ela sentiu um frio na barriga. A noite que deveria ser de Rafael. A “surpresa” que ela trouxera. Agora tudo parecia um pretexto. Um pretexto para o inevitável, o reencontro com a sua maior fraqueza. E ela sabia que, debaixo daquele vestido, a surpresa não era para ser guardada por muito tempo. Só que agora, ela não tinha a mínima ideia para quem seria.
Luna segurou o copo, a bebida gelada contra a palma da mão, mas o calor por dentro era incontrolável. Rafael a chamava para dançar novamente, mas o corpo de Luna estava paralisado, a mente em espiral. A lingerie de renda preta, cuidadosamente escolhida para “aquecer a noite” de seu ficante, parecia agora uma traição silenciosa. Ela havia planejado entregá-la a Rafael, um sinal do que viria depois da balada. Mas o olhar de Dante, o sussurro dele sobre o vestido, a chama antiga que ele reacendeu com tamanha facilidade… tudo estava confuso.
Ela precisava escolher. Quem receberia a “surpresa” que estava ali, no fundo da sua bolsa, destinada a ser um troféu? O homem que ela trouxe, bonito e interessado, mas que não a conhecia de verdade? Ou o homem que ela nunca conseguiu esquecer, que lia cada um de seus gestos, cada um de seus desejos, e que, com um único olhar, tinha a revirado do avesso? A música pulsava, a noite era uma promessa perigosa, e Luna estava prestes a jogar um jogo do qual talvez não soubesse sair.