O Sussurro das Sombras · Capítulo 3

Entre a Névoa e o Eco

O cheiro de terra molhada e folhas podres invadiu as narinas de Mia antes mesmo que ela abrisse os olhos. Não era o perfume familiar de seu apartamento urbano, nem o ar poluído da cidade. Este era um odor selvagem, primitivo, que a fez prender a respiração, um calafrio percorrendo sua espinha. Quando suas pálpebras se ergueram, a escuridão não cedeu imediatamente, mas se transformou num véu cinzento, quase translúcido, que dançava diante dela. Onde estava? A última coisa de que se lembrava era a tela cintilante do seu computador, o jogo recém-instalado, a curiosidade pulsando em seu peito.

Um estalo seco, como um galho se quebrando sob um pé invisível, a fez sobressaltar. Seus cabelos pretos, que sempre pareciam capturar a eletricidade do ambiente antes de qualquer evento sobrenatural, agora formigavam na nuca, eriçados como se cada fio estivesse em alerta máximo. Os olhos azuis-acinzentados, geralmente um espelho de sua mente analítica, estavam agora dilatados, absorvendo cada sombra, cada contorno indistinto. Ela estava deitada sobre algo macio e úmido – musgo, percebeu, ao tatear a textura aveludada. Ao se levantar, o corpo magro e ágil protestou com um gemido abafado, mas a postura tensa, quase de combate, era instintiva. Mia sempre estava pronta para correr, para se defender de ameaças que só ela percebia.

“Olá?”, a voz dela soou rouca, baixa, quase um sussurro que se perdeu na imensidão silenciosa. O som parecia engolido pela névoa densa que envolvia as árvores altas ao redor, transformando-as em espectros disformes. Não havia eco. A ausência de resposta era mais perturbadora do que qualquer grito. O colar com o pingente antigo, o único elo com sua mãe, estava frio contra sua pele, um peso tranquilizador no caos de sensações. Ela apertou-o com os dedos, buscando uma âncora na realidade que parecia ter se desfeito.

O que antes era apenas uma leve vibração nas têmporas, agora se intensificava, uma orquestra desafinada de sussurros distantes. Não eram as vozes claras que ela ouvia às vezes, nem os gritos raivosos que a atormentavam em seus piores dias. Estes eram murmúrios indistintos, misturados com o farfalhar de folhas e o que parecia ser o choro de uma criança. Mia sentiu-se tonta, a mente lutando para processar a avalanche de informações sensoriais, a linha entre o real e o irreal cada vez mais tênue.

“Isso é… um sonho?”, ela murmurou para si mesma, o sarcasmo habitual ausente de sua voz. A incredulidade era um escudo fino contra o terror que ameaçava engoli-la. Ela se beliscou no braço, forte o suficiente para deixar uma marca roxa. A dor era real. O som de seu próprio suspiro, também. Então não era um sonho. Mas onde diabos ela estava?

Seu olhar varreu o ambiente, buscando qualquer sinal de civilização, de algo reconhecível. Mas só havia árvores, mais árvores, e a névoa que parecia se mover com uma vida própria, engolindo a luz do dia antes mesmo que ela pudesse penetrar. As botas pesadas e a jaqueta de couro, seu uniforme urbano e confortável, pareciam deslocadas naquele cenário primordial. Ela não tinha a menor ideia de como havia chegado ali. O portal, as vozes, a entidade pedindo ajuda… tudo parecia um delírio febril, uma alucinação induzida pelo jogo que ela sequer havia começado a jogar de verdade.

Um brilho fraco chamou sua atenção, vindo de trás de um tronco retorcido. Com passos cautelosos, Mia se aproximou, o coração batendo descompassadamente contra as costelas. Era uma runa, entalhada na casca da árvore, pulsando com uma luz azulada que parecia viva. Exatamente como as runas que Elias havia mencionado em suas visões. Elias. O nome surgiu em sua mente como um eco distante, acompanhado por uma imagem fugaz de olhos âmbar e uma presença imponente. Era o guardião do portal, o homem que não deveria existir, mas que povoava seus pensamentos com uma intensidade perturbadora. Ele tinha dito que ela era a chave. A chave para o quê?

Os sussurros aumentaram, e Mia sentiu a urgência nas vozes, o desespero crescente, como se a implorassem por algo que ela não compreendia. Seus olhos brilhavam com uma intensidade estranha, refletindo a luz da runa, e ela sentiu a eletricidade percorrer seu corpo, não apenas nos cabelos, mas em cada nervo. Ela não estava apenas ouvindo; ela estava sentindo. E o que sentia era um perigo iminente, uma ameaça que se aproximava, oculta na névoa. Mia não sabia onde estava ou como havia chegado ali, mas uma coisa era clara: ela não estava sozinha. E a sensação era de que sua presença ali era tudo, menos acidental. Um arrepio glacial percorreu sua pele, e ela soube, com uma certeza arrepiante, que a vida como a conhecia havia terminado. Sua jornada, ou talvez seu pesadelo, estava apenas começando. E o portal, de alguma forma, estava no centro de tudo.