Marcada Pelo Predador · Capítulo 3
A Máscara de Néon
A luz azul do monitor pintava o rosto de Clara com um brilho espectral, realçando o contraste entre seus cabelos negros e a pele pálida. Os dedos dançavam sobre o teclado, uma sinfonia de cliques e toques que ecoava no silêncio do pequeno apartamento. Eram três da manhã, e a cidade lá fora dormia em um véu de neblina, alheia à batalha épica que se desenrolava na tela. Clara não era apenas uma jogadora; ela era uma estrategista, uma caçadora digital, e seu avatar, uma figura sombria com olhos de fogo, refletia perfeitamente a persona que ela cultivava online.
"Mais um, por favor, me dê mais um segundo..." A voz de Clara era um sussurro rouco, quase inaudível, mas carregada de uma intensidade que faria qualquer um se inclinar para ouvir. Seus olhos, normalmente um poço de escuridão, brilhavam com a febre da concentração. No jogo, ela era uma assassina silenciosa, uma sombra que se movia com graça letal. Fora dele, era uma mulher que buscava a mesma adrenalina, a mesma sensação de poder, mas de uma forma muito mais perigosa.
A cama desarrumada no canto, as pilhas de livros sobre true crime, e as anotações rabiscadas sobre o Predador espalhadas pela escrivaninha – tudo isso compunha o cenário do seu santuário. Era ali que ela se sentia viva, entre o calor do computador e o frio de suas obsessões. O vinil da saia curta que usava ainda na cama e o decote calculado da blusa preta, que deixava à mostra um dos símbolos tatuados em sua clavícula, eram um lembrete constante de quem ela era, mesmo quando ninguém estava olhando. Ela se vestia para si, para a versão dela que ansiava por ser vista por *ele*.
De repente, uma notificação piscou no canto da tela, rompendo a imersão. Não era do jogo. Era de um fórum obscuro, um lugar onde almas como a dela se reuniam para discutir os mistérios não resolvidos da cidade. O título do tópico era simples, mas gelou o sangue de Clara: "Ele atacou de novo. Ponte Velha."
Um arrepio percorreu sua espinha, mas não era de medo. Era de uma excitação sombria, proibida. A Ponte Velha era um de seus lugares. Um palco perfeito para que *ele* agisse, e para que ela o observasse. Ela havia estado lá, sozinha, na semana passada, esperando, quase implorando por um sinal. Uma parte inconfessável dela desejava ser a próxima vítima, ser a escolhida, não para morrer, mas para conhecê-lo, para entender a mente por trás da brutalidade.
Clara clicou no link, e as imagens pixeladas de um corpo estendido na estrutura enferrujada da ponte se materializaram. O Predador. Sempre a Ponte Velha. Sempre o nevoeiro. Sempre o mesmo padrão brutal, mas com um detalhe diferente a cada vez. Desta vez, um bilhete foi deixado, preso à vítima. "Ela não viu". As palavras eram curtas, mas a crueldade era imensa.
Os olhos de Clara se fixaram no bilhete. "Ela não viu." Não era uma ameaça. Era uma provocação. Uma provocação para a cidade, para a polícia, para qualquer um que ousasse tentar entendê-lo. Mas para Clara, era mais do que isso. Era um código. Uma mensagem direta, sussurrada através do véu da morte. Ele estava brincando com eles. E ela... ela queria brincar também.
Um sorriso lento e perigoso surgiu em seus lábios cheios, iluminado pelo brilho do monitor. A beleza angelical de seu rosto se contorceu em algo quase demoníaco. Ela rolou a página, lendo os comentários dos outros usuários: medo, revolta, especulações vazias. Ninguém entendia. Ninguém via a arte por trás da barbárie. Ninguém, exceto ela.
Ela desligou o jogo, o mundo virtual esquecido por enquanto. Sua mente já estava na Ponte Velha, nos passos que ele deu, no cheiro de sangue e ferrugem. Ela imaginava a cena, reconstruindo cada movimento, cada toque, a respiração dele no ar frio. Enquanto a maioria tremia de pavor, Clara sentia um chamado, uma atração gravitacional para a escuridão que ele representava. Ele era o Predador, e ela era a presa… que não queria fugir.
Um pensamento, frio e cortante como uma lâmina, a atingiu: *Ele não a caçou. Ela o chamou.* E ele havia respondido. Não da forma que ela esperava, mas com um novo bilhete, um novo corpo. Era um jogo, e Clara sentia que estava prestes a subir de nível. Mas, então, a tela do seu computador piscou. E piscou de novo. Uma falha no sistema? Ou algo mais?
As luzes do quarto piscaram em sincronia, e o monitor exibiu uma série de símbolos estranhos, como um código corrompido, mas que pareciam se alinhar em um padrão perturbador. No centro, uma imagem distorcida de um homem, quase um vulto, apareceu por uma fração de segundo. E então, tudo se apagou. O silêncio voltou, pesado e opressor, mas agora com uma nova camada de suspense. Clara não estava mais sozinha na escuridão. Ela sentiu isso. E o sorriso em seus lábios se alargou, ainda mais perigoso.