Marcada Pelo Predador · Capítulo 1
A isca tem seu próprio Predador?
O néon roxo da tela de Clara espalhava um brilho febril pelo quarto escuro, iluminando a fumaça azulada que dançava no ar. O cheiro de algo queimado – talvez pizza requentada, talvez a própria sanidade – pairava pesado, misturando-se ao adocicado do incenso de sândalo que ela acendia para disfarçar a bagunça. Seus dedos deslizavam sobre o teclado com a precisão de uma cirurgiã, mas a adrenalina que bombeava em suas veias era a de uma guerreira digital. A música eletrônica pulsava nos fones de ouvido, abafando o mundo exterior e amplificando o universo pixelado que a consumia.
Clara não era apenas uma gamer; era uma estrategista. Enquanto seus colegas de equipe berravam ordens desconexas, ela observava, analisava, planejava. Seus olhos castanhos, quase pretos, fixos na tela, refletiam a luz fria do monitor, mas também um brilho de excitação que nem mesmo a escuridão do quarto conseguia esconder. A vitória estava a um clique de distância, e ela sentia isso em cada fibra de seu corpo curvilíneo, esticando-se na cadeira gamers, os quadris acentuados pressionando o estofamento.
“Cobertura! Agora!”, a voz de um dos companheiros explodiu em seu ouvido, mas Clara já estava um passo à frente. Em um movimento fluido, ela flanqueou o inimigo, sua personagem, uma assassina de cabelos negros e vestes de vinil, deslizou pelas sombras. Um sorriso quase imperceptível curvou seus lábios cheios, um sorriso que denunciava uma intenção sombria por trás da inocência estética. Ela amava o jogo, amava a caça, amava a sensação de controle que ele lhe dava.
Fora da tela, a cidade dormia, ou fingia dormir. Ruas estreitas e úmidas se perdiam no nevoeiro que começava a subir, envolvendo os prédios antigos em um abraço fantasmagórico. As janelas quebradas pareciam olhos vazios, observando o silêncio pesado da noite. Era a cidade do Predador, e Clara, em seus 22 anos, era sua adoradora mais devota. Não uma seguidora passiva, mas uma estudiosa, uma colecionadora de detalhes, uma alma curiosa que se recusava a temer o que a maioria temia.
Ela terminava a partida, vitoriosa, e sentiu o alívio morno que sempre a inundava depois de um desafio bem-sucedido. Tirou os fones de ouvido, e o silêncio repentino foi quase ensurdecedor. Olhou para a pilha de livros e recortes de jornais empilhados ao lado do computador, todos sobre o mesmo assunto: o Predador. Aqueles eram seus verdadeiros jogos, os que ela jogava na vida real. Em seu mural de cortiça, alfinetava fotos de cenas de crimes, mapas da cidade com círculos vermelhos, teorias escritas em sua caligrafia elegante. Cada símbolo discreto tatuado em sua pele clara – uma aranha no pulso, uma adaga na nuca – parecia um convite silencioso para o perigo que ela tanto procurava.
Clara se levantou, esticando o corpo. Seus cabelos longos e pretos caíam em cascata pelas costas, sempre ligeiramente bagunçados, como se ela tivesse acabado de sair de algo proibido. Ela vestia um top de vinil e uma minissaia preta, seu uniforme noturno, perfeito para uma breve incursão à geladeira em busca de mais cafeína. A mensagem silenciosa de sua roupa ecoava em sua mente: *eu sei que você está olhando… e quero que olhe*.
Enquanto checava as últimas notícias online sobre o “assassino silencioso”, um calafrio percorreu sua espinha, muito mais intenso do que o ar frio que entrava pela janela ligeiramente aberta. Um novo artigo falava sobre um corpo encontrado perto da ponte velha, um dos locais preferidos de Clara para suas “investigações” noturnas. Era lá que ela ia, sozinha, para sentir a umidade do ar, o cheiro de ferrugem, a adrenalina de estar tão perto do seu objeto de estudo, quase como se o chamasse.
“Ele está perto”, ela sussurrou para o vazio do quarto, seus olhos negros brilhando com uma excitação quase insana. Não havia medo neles, apenas uma curiosidade voraz. Ela notou, então, algo diferente. Um bug. No canto da tela, uma imagem pixelada, quase imperceptível, tremeluzia. Não era parte do site de notícias. Parecia um padrão, uma sequência de símbolos que ela nunca tinha visto antes. Seu coração acelerou. Seria um vírus? Ou… seria um recado?
Clara se inclinou mais perto, seu rosto angelical contorcido em uma expressão de intensa concentração. A imagem sumiu tão rapidamente quanto apareceu, deixando um rastro de dúvida e uma sensação estranha, quase um pressentimento. Era como se, por um instante, o mundo digital e o mundo real tivessem colidido, e uma mensagem tivesse sido enviada diretamente para ela. Uma mensagem do Predador. Ou seria ela que finalmente havia sido notada?