Entre Duas Verdades · Capítulo 3

Entre o Coque e o Caos: A Rotina Inabalável

A rotina de Clara era uma coreografia silenciosa. Cada movimento, cada escolha, parecia ensaiada para manter uma ordem invisível. Naquela manhã de terça-feira, o ritual começou com o despertar abrupto do despertador, um som que ela já havia condicionado a ignorar por exatos três segundos antes de estender a mão para desligá-lo. Não era preguiça; era a certeza de que aqueles segundos eram o último respiro de um mundo onde ela podia ser apenas ela, antes de mergulhar na personagem que a família exigia. Levantou-se, os pés encontrando o chão frio do quarto, e dirigiu-se ao banheiro. Olhou-se no espelho, e os olhos verdes acinzentados, embora intensos, refletiam um cansaço que nem a noite de sono mais longa conseguia dissipar.

O cabelo castanho-escuro, liso e sem vida, foi logo preso no coque baixo de sempre. Uma fortaleza capilar, pensou, como se o cabelo também precisasse seguir regras. As roupas neutras – um suéter bege, jeans escuros – eram a armadura para um dia que prometia ser mais uma réplica do anterior. Na casa de seus pais, em Santa Aurora, tudo era certinho demais. Os móveis pesados, os quadros religiosos que pareciam observar cada passo, os porta-retratos estrategicamente posicionados com sorrisos ensaiados. O silêncio, pesado e denso, era quebrado apenas pelo tilintar dos talheres no café da manhã, pontualmente às sete e meia.

Clara sentou-se à mesa, um prato de pão e café à sua frente. A mãe, Dona Cecília, uma mulher de fé inabalável e opiniões ainda mais firmes, já estava ali, lendo a Bíblia enquanto tomava seu chá. O pai, Sr. Roberto, lia o jornal, a testa franzida em preocupação sobre a economia. A irmã mais nova, Sofia, com seus quinze anos e o entusiasmo vibrante de uma adolescente, era a única a trazer um pouco de cor àquela paisagem monocromática. Sofia a idolatrava, e isso era um peso extra nos ombros de Clara. Como ser um modelo para alguém quando você mesma se sente tão quebrada e disfarçada?

“Clara, você vai sair depois do trabalho hoje?” perguntou Dona Cecília, sem desviar os olhos do livro, mas com um tom que não admitia evasivas. Era uma pergunta que já vinha com uma expectativa embutida: a de que a resposta seria ‘não’, ou no máximo, ‘sim, mas voltarei cedo e sem causar transtornos’.

“Não, mãe. Tenho algumas coisas para adiantar em casa”, respondeu Clara, a voz soando mais monótona do que ela gostaria. Era uma meia-verdade. As “coisas para adiantar” eram, na verdade, os poemas secretos que preenchiam cadernos escondidos e, principalmente, as horas a fio que passava imersa em seu mundo virtual, longe da rigidez de Santa Aurora.

Seu trabalho como revisora de textos era monótono, mas pagava as contas e oferecia a solidão necessária para que sua mente divagasse. À noite, porém, era quando a verdadeira Clara vinha à tona. No refúgio do seu quarto, em frente à tela iluminada do computador, ela era *Lyra*, uma das jogadoras mais habilidosas de um MMORPG de fantasia medieval. Lá, ela não precisava de coques, de suéteres neutros ou de respostas prontas. Lyra era uma guerreira elfa, ágil e destemida, com uma capa esvoaçante e olhos que brilhavam com a luz de mil estrelas. Lá, ela era livre.

Naquela noite, depois de mais um jantar silencioso e uma reprimenda velada da mãe sobre o uso excessivo do celular de Sofia (“Você deveria ler mais, querida, como sua irmã”), Clara correu para o quarto. Trocou o suéter pelo moletom mais confortável, soltou o cabelo e ligou o computador. O brilho da tela a acolheu como um abraço. Entrou no jogo, e o mundo de Azeroth a recebeu com o familiar som de espadas e magia, de florestas ancestrais e cidades vibrantes.

Estava em uma missão importante com seu clã, coordenando um ataque a um dragão lendário. A adrenalina pulsava, e ela se sentia viva de um jeito que a Clara de Santa Aurora jamais poderia compreender. Seus dedos voavam pelo teclado, executando comandos com precisão cirúrgica. As vozes de seus amigos do clã preenchiam seus fones de ouvido, um coro de incentivo e estratégia que era música para seus ouvidos. Eles a conheciam como Lyra, a estrategista, a líder. Não como a filha quietinha e a irmã modelo.

Quando o dragão finalmente caiu, com um rugido estrondoso que fez seus fones vibrarem, uma onda de satisfação a percorreu. O clã comemorava, e Lyra era a heroína do momento. Ela sorriu, um sorriso genuíno e relaxado, que raramente aparecia em seu rosto na vida real. Desconectou-se do chat de voz, mas permaneceu no jogo, explorando as novas áreas liberadas. Foi então que aconteceu. No meio de uma floresta de cristal, um brilho estranho, fora do padrão do jogo, piscou na tela. Não era um efeito de magia, nem um bug comum de textura. Era algo diferente, mais profundo, quase um portal que se abria para outro lugar. Ela tentou se aproximar, e a tela piscou novamente, dessa vez com uma intensidade luminosa que a forçou a desviar o olhar. Quando focou novamente, a imagem na tela estava… distorcida. Como se o mundo de Azeroth estivesse se desdobrando, revelando algo por trás. Um erro no código? Ou algo mais?