Entre Duas Verdades · Capítulo 1

A quietude antes do caos?

O relógio de parede na cozinha marcava sete e trinta da noite quando Clara terminou de guardar a última louça. O silêncio, denso e previsível, era a trilha sonora de sua existência em Santa Aurora. Sua mãe, dona Lúcia, já estava recolhida em seu quarto, absorta em suas orações noturnas, enquanto seu pai, o senhor Afonso, lia o jornal do dia seguinte na sala, mesmo que as notícias fossem as mesmas de sempre, apenas com roupagens diferentes.

Clara sentia o peso desse silêncio, uma espécie de armadura invisível que a protegia e a sufocava ao mesmo tempo. Seus movimentos eram calculados, quase silenciosos, como se temesse que qualquer ruído excessivo pudesse quebrar a frágil paz que reinava na casa. Seus cabelos castanho-escuros, lisos e habitualmente presos em um coque baixo, hoje estavam soltos, em uma pequena rebeldia que passaria despercebida por todos, menos por ela mesma. Seus olhos verdes acinzentados, geralmente desviados, hoje se demoravam um pouco mais na imagem refletida na janela da cozinha: uma silhueta pálida, quase etérea, que parecia pertencer a outra pessoa.

Depois de conferir que tudo estava em ordem — o balcão limpo, as cadeiras alinhadas, as flores no centro da mesa com água fresca —, Clara subiu as escadas. A cada degrau, sentia o alívio sutil de se afastar do epicentro daquela conservadora quietude. Seu quarto era o único refúgio onde podia ser, ainda que minimamente, quem realmente era. Era ali que seus poemas secretos, escritos em cadernos escondidos sob o colchão, ganhavam vida. Era ali que as outras versões de Clara, as que riam alto, falavam o que pensavam e amavam livremente, podiam respirar.

O quarto era um contraste suave com o restante da casa. Embora os móveis fossem os mesmos, herdados de alguma tia-avó, Clara havia conseguido injetar um pouco de si ali. Uma pequena estante de livros de capa mole e títulos que seus pais provavelmente desaprovariam, um violão empoeirado no canto, e, claro, seu computador. Seu portal. Seu santuário.

Ao sentar-se na cadeira giratória, o mundo de Santa Aurora e suas expectativas pareciam diminuir. Ela ligou o computador, e o brilho da tela a acolheu. O monitor, um modelo antigo, mas confiável, era sua janela para um universo onde as regras eram diferentes, onde as pessoas podiam ser o que quisessem, onde as emoções eram exploradas sem censura. Este era o seu vício secreto, sua paixão mais bem guardada: os jogos online.

Clara não era uma gamer casual. Ela era uma estrategista nata, uma mestre em desvendar complexos quebra-cabeças e em prever os movimentos dos adversários. No mundo virtual, ela era “Luminaris”, uma feiticeira elfa conhecida por sua precisão e por sua capacidade de liderar equipes à vitória. Diferente da Clara que mal conseguia proferir uma frase completa sem hesitação, Luminaris era assertiva, confiante e respeitada.

Naquela noite, ela se conectou ao seu jogo favorito, “Éden Perdido”, um RPG de fantasia medieval que exigia estratégia e cooperação. Seus fones de ouvido abafaram o último vestígio da casa silenciosa, e a voz de seu amigo virtual, Kael, preencheu o espaço. “Luminaris, chegou na hora! Estamos te esperando para a incursão final na Fortaleza de Aethel.”

Clara sorriu, um sorriso genuíno que raramente aparecia em seu rosto na vida real. “Estou dentro, Kael. Preparem-se para a vitória.”

Por horas, ela mergulhou de cabeça no jogo, os dedos dançando sobre o teclado, os olhos fixos na tela enquanto comandava feitiços e estratégias. A tensão da batalha, a adrenalina da vitória iminente, tudo a fazia esquecer o vazio que sentia durante o dia. Mas, no auge daquele confronto digital, algo estranho aconteceu. A tela piscou, não com o bug usual, mas com uma distorção sutil, quase imperceptível. Por uma fração de segundo, as cores do jogo se fundiram em um borrão vibrante, e uma imagem efêmera, de um par de olhos castanho-âmbar intensos, pareceu sobrepor-se ao cenário de fantasia. Clara piscou, sacudindo a cabeça, atribuindo a visão à exaustão. Mas a sensação permaneceu. Era como se algo, ou alguém, tivesse tentado romper a barreira entre seus dois mundos, deixando uma marca, uma promessa tênue de que a quietude em que vivia estava prestes a ser perturbada.