Entre Chamas e Gelo · Capítulo 1

O Primeiro Dia

Rafael Monteiro não era o tipo de homem que chegava cedo.

Ele era o tipo de homem que chegava exatamente no horário — e fazia todo mundo sentir que estavam atrasados.

Laura percebeu isso na primeira manhã no trigésimo segundo andar da Monteiro Holdings. Eram exatamente oito horas quando as portas de vidro se abriram, e o silêncio que tomou conta do escritório foi mais eloquente do que qualquer anúncio corporativo poderia ser. Secretárias endireitaram a postura. Gerentes fecharam o celular de maneira discreta. Até o ar-condicionado pareceu recalibrar a temperatura da sala.

E então ela o viu.

Alto, ombros largos que pareciam ter sido esculpidos especificamente para fazer um terno parecer uma segunda pele. Cabelos castanho-escuros, levemente despenteados — o único detalhe nele que sugeria que ele era humano. Os olhos, quando varreram a sala num único movimento calculado, eram de um cinza tão frio que Laura sentiu o termômetro interno dela cair dois graus instantaneamente.

Ela já havia visto fotos dele, claro. O dossiê que a diretora de RH enviara na semana anterior era detalhado: Rafael Monteiro, trinta e seis anos, CEO da Monteiro Holdings há cinco anos, conhecido por triplicar o faturamento da empresa e por dispensar diretores experientes sem piscar. Um homem que não aceitava desempenho médio.

As fotos, no entanto, não faziam jus à presença dele.

Aqueles olhos cinza pararam nela.

Laura sustentou o olhar. Ela havia prometido a si mesma que não seria intimidada no primeiro dia. Que chegaria, mostraria competência, e provaria que a promoção relâmpago que a trouxera de Curitiba para São Paulo não havia sido um erro.

— Você deve ser a Vasconcelos — disse ele. Não foi uma pergunta.

— E você deve ser o problema — respondeu ela antes que o bom senso tivesse chance de interferir.

Um segundo de silêncio absoluto desceu sobre o escritório como uma cortina de teatro.

Alguém, em algum lugar entre as baias de trabalho, engoliu em seco de forma perfeitamente audível. Laura notou, com o canto do olho, que a assistente pessoal de Rafael — uma mulher de meia-idade com óculos de aros dourados — havia congelado com a prancheta no ar.

Rafael Monteiro inclinou levemente a cabeça para o lado. E Laura jurou que viu o canto esquerdo da sua boca se mover — não exatamente um sorriso, mais como o reconhecimento silencioso de que algo inesperado havia acabado de acontecer em sua agenda perfeitamente controlada.

— Sala de reunião B. Dez minutos — disse ele, e seguiu em frente como se ela fosse apenas mais um item a ser resolvido na sua lista do dia.

Laura ficou parada por exatamente três segundos.

Depois respirou fundo, ajeitou a pasta debaixo do braço, pegou o café que mal havia tocado e caminhou em direção à sua nova mesa com a coluna ereta e a expressão neutra que havia praticado no espelho do banheiro do hotel naquela manhã.

Ela só se permitiu soltar o ar quando se sentou e abriu o notebook.

— Nossa — murmurou Camila, a analista de projetos que ocupava a mesa ao lado, inclinando-se levemente na cadeira. — Você durou mais de cinco segundos olhando pra ele sem desviar o olhar. Novo recorde.

— Quantos segundos é o normal? — perguntou Laura baixinho, sem tirar os olhos da tela.

— Dois. Três, se a pessoa for muito corajosa.

Laura considerou isso.

— Então fui corajosa.

— Ou louca — disse Camila, voltando para a própria tela com um sorriso discreto. — Ainda não sei qual dos dois.

Nove minutos e quarenta segundos depois, Laura entrou na sala de reunião B com o tablet na mão e o relatório de integração que havia preparado nos últimos três dias carregado e pronto para apresentação.

Rafael já estava lá. De pé, de costas para a porta, olhando pela janela panorâmica que enquadrava a cidade como uma pintura fria e cinza. Sem gravata — o único sinal de que aquele não era um dia de reunião formal. As mangas da camisa branca estavam dobradas até o antebraço.

Ele não se virou quando ela entrou.

— Me fale sobre o projeto Argos — disse ele, ainda de costas.

Laura colocou o tablet sobre a mesa, conectou ao projetor e iniciou a apresentação antes de responder.

— Prazo de trinta dias para mapear todos os pontos de ineficiência operacional das três subsidiárias que serão integradas na fusão. Entregas semanais às sextas. Relatório final com recomendações estruturais no último dia.

— E o que você sabe sobre fusões corporativas do setor logístico?

— O suficiente para não cometer os erros que a equipe anterior cometeu no projeto de 2022.

Agora ele se virou.

Os olhos cinza pousaram nela com uma atenção diferente da que havia tido no escritório. Mais focada. Como se ele estivesse, pela primeira vez, realmente avaliando o que via.

— Você leu o relatório interno.

— Li todos os relatórios disponíveis. — Laura manteve a voz calma. — Se vou passar trinta dias resolvendo um problema, preciso entender como ele foi criado.

Um silêncio se instalou entre os dois. Não o silêncio desconfortável de antes — algo diferente. Mais denso. Como o momento antes de uma tempestade decidir se vai ou não cair.

Rafael Monteiro cruzou os braços e olhou para a apresentação na tela por alguns segundos.

— Quinta-feira — disse ele por fim. — Primeira entrega parcial. Não na sexta.

Era um teste. Laura reconheceu isso imediatamente.

— Quinta está bem — respondeu ela, sem hesitar.

Ele pegou o próprio notebook da mesa e saiu da sala sem mais uma palavra.

Laura ficou sozinha com o projetor ainda ligado e a sensação estranha de que os próximos trinta dias não seriam nem o fim da sua carreira nem o começo de algo sem nome.

Seriam as duas coisas ao mesmo tempo.