Beijo da Meia-Noite · Capítulo 3
Entre o real e o pesadelo
O ar frio e úmido de Ravenshade chicoteou o rosto de Helena, arrancando-lhe um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura. A névoa, densa como um véu, abraçava as árvores retorcidas que ladeavam a estrada, transformando a paisagem em um borrão cinzento e indistinto. O motor do velho carro alugado tossiu uma última vez antes de silenciar, deixando-a em um vácuo de som, quebrado apenas pelo sussurro do vento entre os pinheiros.
Helena apertou o volante, os nós dos dedos brancos. A mudança, que antes parecia uma promessa de um novo começo, agora se manifestava como um erro colossal. A cidadezinha que deveria ser seu refúgio era, na verdade, um portal para a solidão e um medo que ela não sabia nomear. Seus olhos cor de mel, sempre inquisitivos, tentavam furar a penumbra, mas apenas encontravam sombras dançantes e a promessa de um vazio ainda maior.
Ela suspirou, o hálito formando pequenas nuvens no ar gélido. A morte da avó a deixara em pedaços, e a tentativa de sua família de "reerguê-la" forçando-a a seguir um caminho que não era o seu a empurrou para Ravenshade. Mas o silêncio que ela buscava não era este: um silêncio opressor, pesado, que parecia engolir qualquer resquício de esperança. Ela queria paz, não um prelúdio para um filme de terror.
Com um último suspiro de resignação, Helena abriu a porta do carro. O rangido do metal ecoou na quietude da floresta. O chão sob seus pés era macio e úmido, coberto por uma camada de folhas secas. Ela pegou a lanterna no porta-luvas, um raio fraco de luz tremendo na escuridão ao redor. Cada passo era uma batalha contra a insegurança, contra a sensação de estar sendo observada. A cidade, invisível atrás da neblina, parecia um monstro à espera.
De repente, um ruído. Um estalo seco, como um galho quebrado, vindo de trás dela. Helena girou, o coração batendo forte contra as costelas. A lanterna tremia em sua mão, seu feixe de luz dançando descontroladamente entre as árvores. Nada. Apenas a escuridão impenetrável. Ela tentou racionalizar, dizer a si mesma que era apenas um animal, mas a intuição, aguçada pela vulnerabilidade, gritava perigo.
Ela voltou-se para a estrada, tentando avistar as luzes da cidade, qualquer sinal de vida. Foi então que sentiu. Não um toque, mas uma presença. Um arrepio gélido percorreu sua espinha, e os pelos de seus braços se arrepiaram. Um perfume sutil, quase imperceptível, de terra úmida e algo mais, algo antigo e perigoso, flutuou no ar. Ela prendeu a respiração, paralisada pelo medo.
Um vulto. Alto e esguio, recortado contra a neblina, surgiu à beira da floresta. Seus olhos, dois pontos de um vinho tão escuro que pareciam quase negros, brilhavam com uma intensidade sobrenatural. Ele parecia ter emergido das próprias sombras, sem fazer um único som. Seu cabelo, preto como a noite, estava ligeiramente desalinhado, e a pele pálida, quase translúcida, destacava-se na penumbra. Era uma figura que parecia ter saído de um sonho – ou de um pesadelo.
Helena não conseguiu se mover. O medo a imobilizava, mas havia algo mais. Uma estranha atração, uma curiosidade perigosa que a puxava para aquele desconhecido. Ele não se moveu, apenas a observou, como um predador avaliando sua presa. Um único gole. Uma sede antiga, quase insuportável, o consumia. Mas havia algo nos olhos da mulher, uma fragilidade misturada com uma força silenciosa, que o impedia de avançar.
No entanto, o instinto, mais forte que a razão, prevaleceu. Um passo. Dois passos. Ele avançou, sua silhueta alta e ameaçadora se aproximando. Helena sentiu o coração disparar, o sangue correndo quente em suas veias. Ela recuou um passo, depois outro, tropeçando em uma raiz no caminho. Seu pé virou, e ela sentiu a dor lancinante antes mesmo de cair. A lanterna voou de sua mão, mergulhando o local em escuridão quase total, quebrada apenas pelo brilho distante dos olhos do homem.
No momento em que seu corpo se inclinou para a queda inevitável, uma mão forte e fria a agarrou. Seus dedos envolveram seu braço com uma firmeza surpreendente, puxando-a para cima antes que ela beijasse o chão. O impacto, porém, foi apenas adiado. O sangue, quente e pulsante, escorreu do corte em seu tornozelo, expondo-se ao ar frio. E para Lucian, a visão, o cheiro, foi demais. Um único gole. Apenas um. Ele não resistiu.
Seus olhos se encontraram, os dela arregalados de surpresa e um medo misturado com uma faísca de fascínio. Os dele, intensos, sombrios, e agora, com uma fome recém-despertada. Naquele instante, quando os lábios frios dele tocaram sua pele e ele provou o seu sangue, Helena sentiu um choque elétrico percorrer seu corpo. Não era apenas dor, mas uma conexão estranha, profunda, que se estabelecia entre eles, selando seu destino de uma forma que ela jamais poderia prever. Ela cambaleou, a cabeça girando, a escuridão engolindo-a. Sua última visão foi o rosto pálido e impassível do homem, seus olhos fixos nos dela, carregados de uma antiga tristeza e de um novo, perigoso desejo.